A Transfiguração pelo Sacrifício
Quando o sofrimento do Cristo houver terminado a obra redentora e libertadora que ele veio realizar entre nós — e que me parece aproximar-se do seu fim —; quando, graças à civilização cristã e às novas ciências que se inauguram entre nós; quando, digo, por favor de todas estas iluminações, o humilde e sofredor Cristo “tiver sido suficientemente exaltado” no entendimento do povo redimido pelo seu sangue, então, segundo suas próprias palavras, “atrairá todos a si, os elevará a seu Pai e nosso Pai, a seu Deus e nosso Deus”, e nesta ascensão abrangerá o mundo inteiro.
Necessitamos comentar este texto? Como se vê, seria apenas parafrasear a Lei da Iniciação, tal como outrora era praticada no segredo dos Templos, e tal como, creio eu, os Mahâtmas e Chelas ainda a praticam em seus profundos e santos retiros. Quando, pela estrada purificadora do sofrimento, da expiação e da morte, o Cristo for transfigurado na estrutura social, assim como outrora foi visto pessoalmente sobre o profético Tabor, a ponto de o Cristo doloroso se ter tornado o Cristo triunfante, mediante o sacrifício feito ao Ego absoluto de tudo o que constitui o Ego relativo ou o Egoísmo, então, em verdade, como Filho de Deus que é desde toda a Eternidade, como o Verbo, igual e consubstancial ao Pai, segundo a expressão canônica nicena, será reconhecido, aclamado, glorificado tanto pelo Oriente como pelo Ocidente; então todos os santuários ecoarão novamente seu chamado.
A Humanidade, derrubando as barreiras que fecham e sectarizam as igrejas, viajará livre e pacificamente rumo ao prometido Aprisco, para constituir uma família universal do Pai, sob o cajado único de um Pastor que será o próprio Cristo, visivelmente personificado em um Pontífice que não mais se assemelhará ao Papa de hoje, assim como o Papa de Salt Lake não se assemelha ao verdadeiro Papa do Vaticano.
Enquanto se aguarda que estas profecias se realizem, não vos perturbeis demasiadamente, não vos escandalizeis, Madame, com a humildade do nosso Cristo! Um grande mistério, que já não o é para muitos iniciados, oculta-se sob suas mortificações. Para assumir a natureza humana, e com ela a humanidade cotidiana, com todas as suas mônadas individuais, transitórias e incessantemente renovadas na jornada terrena, o Cristo teve de tomar sobre si, em sua carne, todas as nossas chagas, todas as nossas misérias, todas as nossas enfermidades pessoais e sociais, e expiá-las sobre uma cruz, em torrentes de um sangue virginal, absolutamente puro aos olhos do Pai. Para erguer este mundo caído — mais afundado no Ocidente que no Oriente, e por isso o eixo da terra está inclinado, como sabeis — era necessária uma alavanca. Essa alavanca, muito mais potente que a que Arquimedes pediu, é o braço do Cristo, esse braço que chamamos “a invencível destra do Pai”.
Sob tal processo a Europa está evoluindo, está sendo moralmente elevada; desperta, estremece, não o percebeis? Cresce, ascende, em breve se encontrará nas altitudes onde a Ásia a aguarda. Os Mahâtmas, com o olhar fixo em nós, têm visto este movimento ascensional operar-se na turbulência de nossas revoluções, e dizem consigo mesmos: Este é o momento psicológico, estendamos a mão a nossos pobres irmãos, e acendamos nossos faróis em meio às suas trevas.
E quando, por este meio, o Oriente e o Ocidente se encontrarem e se abraçarem, então, ambos arcádios, alçarão juntos seu glorioso voo rumo ao Reino dos Céus realizado na Terra, e a divina Jerusalém contemplada pelo Vidente de Patmos descerá entre nós, para ser habitada por homens que serão como Deuses, e por Deuses que serão como homens, segundo a palavra do nosso Cristo: Ego dixi; vos Dii estis! — Eu disse: vós sois deuses!
— Escritos Compilados Vol. 9 — H.P. Blavatsky
GET HERMES — Grupo de Estudos Teosóficos Hermes