A Realidade Além das Sombras
Quando vemos sombras na tela de uma projeção cinematográfica e nos interessamos pelo jogo das sombras, é porque estamos cientes de que essas sombras foram produzidas por realidades correspondentes a pessoas reais — homens, mulheres e crianças — que criaram aquele filme. Sabemos também que o drama que se desenrola diante de nós não é apenas uma peça produzida por meros atores, mas corresponde a situações reais que encontramos na vida humana. São esses fatos ligados à nossa vida real que são responsáveis pelo extraordinário interesse que temos em um filme, não o mero movimento das sombras sobre a tela.
Isto nos dá uma pista sobre por que nos interessamos tanto pelo mundo irreal e impermanente no qual vivemos e nos movemos. Nosso interesse por este mundo fenomenal deriva do fato de que esses fenômenos são as sombras de realidades que estão dentro de nós, embora invisíveis. É também este fato que confere a sensação de realidade a essas sombras e nos faz tomá-las como reais, até que descubramos que são meras sombras. O mundo da ilusão é a sombra de um mundo real, e quando embarcamos na viagem do Autodescobrimento, estamos meramente tentando deixar a sombra para agarrar a Realidade que projeta essas sombras em nossa consciência.
Se, sem saber, corremos atrás de uma sombra e de repente percebemos que é apenas uma sombra, o que há nisso que nos perturbe? Esse sentimento de vazio e nulidade, que às vezes nos sobrevém quando o discernimento nasce, é parte da ilusão e deve passar com o tempo. Devemos nos alegrar por sermos perturbados em nossa complacência e também agradecer por esta oportunidade de desviar o olhar da sombra e erguê-lo para ver a Realidade que está produzindo a sombra.
Quando uma criança vê a sombra de um avião se movendo no chão, ela imediatamente ergue os olhos para o céu para ver o avião real que está projetando aquela sombra. Assim, quando vemos a vida ao nosso redor como uma série de fenômenos irreais, devemos tentar olhar para dentro de nós mesmos em busca da Realidade que produz esses fenômenos. Pois é do centro de nossa Consciência que essas sombras são projetadas para fora.
A reflexão profunda sobre a natureza dessa Realidade, conforme descrita nas escrituras ou nas declarações de Místicos e Ocultistas, pode nos dar algum incentivo para ir para dentro de nós mesmos e começar a explorar os recessos mais profundos de nossas mentes, mas isso geralmente não nos dá um incentivo adequado porque a maior parte desse trabalho se dá no plano do intelecto. O que realmente necessitamos é o desenvolvimento de uma poderosa atração para a Vida Divina dentro de nós, que nos atraia para Si mesma e forneça a força motriz necessária que geralmente nos falta. Essa atração ou força de atração não é senão o amor por Deus, ou bhakti. Portanto, se quisermos ter um poderoso impulso espiritual dentro de nós, significa que devemos primeiro desenvolver amor por Aquilo que desejamos descobrir. Esse amor combinado com o pensamento profundo também estimulará a faculdade intuitiva dentro de nós; e com o desenvolvimento do Buddhi e sua infiltração em nossas mentes, não apenas todos os nossos problemas começarão a se resolver, mas nossa vida interior começará a se desdobrar de modo constante.
