“The Conscience of a Hacker” — mais conhecido como “O Manifesto Hacker” — foi escrito por The Mentor (Loyd Blankenship) em 8 de janeiro de 1986, logo após sua prisão pelo FBI. Publicado originalmente na ezine Phrack (Volume 1, Issue 7), tornou-se o texto mais emblemático da cultura hacker mundial.
No Brasil, o manifesto foi traduzido e viralizou nos anos 1990 através de BBSs, disquetes e, mais tarde, na lendária “Sessão Hacker” do diretório Cadê? — o maior sistema de busca brasileiro antes do Google. Era um rito de passagem para qualquer jovem curioso que descobria o universo dos computadores e da programação.
Abaixo, a tradução brasileira clássica na íntegra:
Obs: Este texto foi escrito pelo Mentor, um dos hackers velha guarda
Mais outro foi pego hoje, está tudo nos papéis. “Adolescente preso em Escândalo do Crime de Computador”, “Hacker preso após trapaça em Banco” — de 3 ângulos e cérebro de 1950. Alguma vez olhou atrás dos olhos de um hacker? Você já imaginou o que faz ele agir, quais forças balançam ele, o que o tornou assim?
Eu sou um Hacker, entre para o meu mundo…
Meu mundo é aquele que começa com a escola… Eu sou mais esperto que os outros, esta besteira que nos ensinam, me aborrece…
“Caçete trapaceiro. Eles são todos iguais.”
Eu estou no ginásio. Eu ouvi os professores explicarem pela quinquagésima vez como reduzir uma fração. Eu entendo como. “Não, Sra. Smith, eu não mostrei meu trabalho. Eu fiz na minha cabeça…”
“Caçete criança. Provavelmente copiei. Eles são todos iguais.”
Eu fiz uma descoberta hoje. Eu encontrei um computador. Espere um pouco, isto é bacana. Faz o que eu quero. Se cometer um erro é porque ferrou tudo. Não porque ele não gosta de mim… Ou se sente atraído por mim… Ou pensa que eu sou um CDF… Ou não gosta de ensinar e não gostaria de estar aqui.
“Caçete criança. Tudo o que ele faz é jogar jogos. Eles são todos iguais.”
E então aquilo acontece… uma porta aberta ao mundo… surfando pela linha telefônica como heroína nas veias, um comando enviado, um refugo da incompetência de procurar no dia-a-dia…
Uma BBS é achada. “É isto… é aqui que eu pertenço.”
Eu conheço todo mundo aqui… Mesmo que eu nunca conheci eles, nunca conversei e até nunca os vi… Eu conheço todos vocês. “Caçete criança… Enganando a linha telefônica de novo. Eles são todos iguais… Aposte seu rabo que são…”
Nós fomos alimentados com comida de bebê na escola quando queríamos bifes…
Os pedaços de carne que você deixou escapar estavam pré-cozidos e sem gosto. Nós fomos dominados por sádicos, ou ignorados por patéticos. Os poucos que tiveram algo a nos ensinar quando éramos crianças, acharam-nos dispostos a tudo, mas estes são como lagos d’água no deserto.
Este é o nosso mundo agora… O mundo do elétron e da mudança, a beleza do modem.
Nós fazemos uso de um serviço já existente sem pagar por aquilo que seria bem caro se não fosse usado por gulosos atrás de lucros, e vocês nos chamam de criminosos.
Nós exploramos… e vocês nos chamam de criminosos.
Nós procuramos por conhecimento… e vocês nos chamam de criminosos.
Nós existimos sem cor de pele, sem nacionalidade, sem religião… e vocês nos chamam de criminosos.
Vocês constroem bombas atômicas, vocês começam guerras, assassinam, trapaceiam, e mentem para nós e tentam fazer que acreditamos que é para nosso próprio bem. Sim, nós somos os criminosos.
Sim, eu sou um criminoso. Meu crime é o da curiosidade. Meu crime é o de julgar pessoas pelo que elas dizem e pensam, não como elas se parecem. Meu crime é de desafiar vocês, algo que vocês nunca me farão esquecer.
Eu sou um hacker e este é o meu manifesto.
Vocês também podem parar este indivíduo, mas não podem parar todos nós… apesar de tudo, nós somos todos iguais.
— +++The Mentor+++
Sobre o autor
Loyd Blankenship (The Mentor) foi um dos primeiros hackers da cena norte-americana, membro do grupo Legion of Doom. Preso em 1986, escreveu o manifesto como uma defesa filosófica da comunidade hacker. O texto influenciou gerações e continua sendo uma declaração poderosa sobre o direito à curiosidade e ao conhecimento.
Texto preservado do arquivo do GeoCities/OoCities, originalmente hospedado na sessão hacker do diretório Cadê? (Brasil, anos 1990).