O que é a memória? E como ela funciona? Por que meios recuperamos o passado, seja ele próximo ou remoto? Afinal, seja o passado próximo ou distante, pertencente a esta vida ou a uma vida anterior, os meios que governam sua recuperação devem ser semelhantes, e necessitamos de uma teoria que abranja todos os casos de memória e que, ao mesmo tempo, nos permita compreender cada caso particular.
O primeiro passo para obter uma teoria definida e inteligível é a compreensão de nossa própria composição — do Self com seus veículos e suas inter-relações. Devemos ter constantemente em mente que nossa consciência é uma unidade, e que essa unidade de consciência trabalha através de diversos veículos, que lhe impõem uma falsa aparência de multiplicidade. O mais sutil desses veículos é inseparável da unidade de consciência; na verdade, é esse veículo que a torna uma unidade.
Devemos pensar, então, num Self consciente que habita veículos que vibram. As vibrações desses veículos correspondem, do lado da matéria, às mudanças na consciência do lado do Self. Uma vibração do mundo exterior atinge um órgão dos sentidos e é transmitida ao centro apropriado no cérebro. Um grupo de células no cérebro vibra, e essa vibração deixa as células num estado algo diferente daquele em que se encontravam antes de recebê-la. Cada repetição de uma vibração idêntica fortalece essa possibilidade; cada uma deixa seu próprio rastro, mas muitas repetições serão necessárias para estabelecer uma repetição autoiniciada — as células se aproximam dessa possibilidade de vibração autoiniciada a cada repetição compelida de fora.
Mas essa vibração não parou nas células físicas; ela foi transmitida para dentro, até as células correspondentes nos veículos mais sutis, e em última análise produziu uma mudança na consciência. Essa mudança, por sua vez, reage sobre as células, e uma repetição das vibrações é iniciada de dentro pela mudança na consciência — e essa repetição é uma memória do objeto que iniciou a série de vibrações. A resposta das células à vibração externa, uma resposta compelida pelas leis do universo físico, dá às células o poder de responder a um impulso semelhante, embora vindo de dentro.
Uma série de impressões sensoriais — visão, audição, tato, paladar e olfato — sobe do veículo físico através do astral até o mental. Lá elas são coordenadas numa unidade complexa, como um acorde musical composto de muitas notas. Esse é o trabalho do corpo mental: ele recebe muitas correntes e as sintetiza numa só; constrói muitas impressões numa percepção, num pensamento, numa unidade complexa.
A mudança causada na consciência também a deixa mais pronta a repetir aquela mudança do que estava no início para ceder a ela, e cada mudança aproxima a consciência do poder de iniciar uma mudança semelhante. Olhando para trás, para os alvoraces da consciência, vemos que os Selves aprisionados passam por inúmeras experiências antes que uma mudança autoiniciada na consciência ocorra; mas tendo isso em mente como fato, podemos deixar esses estágios iniciais e estudar o funcionamento da consciência num ponto mais avançado. Devemos também lembrar que cada impacto, atingindo o invólucro mais interno e dando origem a uma mudança na consciência, é seguido por uma reação — a mudança na consciência causando uma nova série de vibrações de dentro para fora; há o movimento para dentro, em direção ao Self, seguido pelo ondular para fora, partindo do Self: o primeiro devido ao objeto, dando origem ao que chamamos percepção, e o segundo devido à reação do Self, causando o que chamamos memória.
— Extraído de: A Memória e Sua Natureza
