Os caminhos são dois; as grandes perfeições três; seis as virtudes que transformam o corpo na árvore da sabedoria. Quem se aproximará delas? Quem primeiro entrará para elas? Quem primeiro ouvirá a doutrina dos dois caminhos em um, a verdade sem véu a respeito do Coração Secreto? A lei que, rejeitando o aprender, ensina a sabedoria, revela uma história de dor.
Aprende, ó principiante, que este é o caminho aberto, o caminho para a felicidade egoísta, evitado pelos Bodhisattvas do Coração Secreto, os Budas da Compaixão. Viver para servir a humanidade é o primeiro passo. Praticar as seis virtudes gloriosas é o segundo. Vestir a veste humilde do Nirmanakaya é rejeitar para si a felicidade eterna, para poder auxiliar a salvação humana. Chegar à felicidade do Nirvana, mas renunciar a ela, é o passo supremo, final — o mais alto no caminho da renúncia.
Aprende, ó discípulo, que é este o caminho secreto, escolhido pelos Budas da perfeição, que sacrificaram a sua Personalidade a personalidades mais fracas. Mas, se a doutrina do coração é alta demais para ti, se precisas te auxiliar a ti próprio e receias oferecer auxílio aos outros — então, tu de coração tímido, acautela-te a tempo; contenta-te com a doutrina ocular da Lei. Continua esperando. Porque se o Caminho Secreto não é atingível hoje, amanhã estará ao teu alcance.
O Caminho é um, discípulo, mas, no fim, duplo. Marcados estão os seus estágios por quatro e sete portas. A uma extremidade a felicidade imediata, à outra, felicidade renunciada. Ambos são a recompensa do mérito: a escolha a ti pertence. O um toma-se os dois, o Aberto e o Secreto. O primeiro leva à meta, o segundo à imolação de si próprio.
Quando ao permanente o mutável se sacrifica, o prêmio é teu; volta a gota ao lugar de onde veio. O Caminho Aberto conduz à mudança imutável — Nirvana, o estado glorioso de absoluto, a felicidade para além da concepção humana. Assim, o primeiro caminho é a Libertação. Porém, o segundo caminho é a Renúncia; por isso é chamado o Caminho da Dor.
O Caminho Secreto conduz o Arhan a uma angústia mental inexprimível; dor pelos mortos que estão vivos, e compaixão inútil pelos homens da tristeza cármica; o fruto do Carma não ousam os Sábios fazer parar. Porque está escrito: “Ensina a evitar todas as causas; à maré do efeito, como à grande onda, deixarás seguir o seu curso”.
A estrada secreta também conduz à felicidade paranirvânica — mas ao termo de kalpas inúmeros; Nirvanas ganhos e perdidos por uma piedade e compaixão ilimitadas pelo mundo de mortais iludidos. Mas diz-se: “O último será o maior”. Samyak Sambuda, o Mestre da perfeição, abandonou a sua Personalidade para salvação do mundo, parando no limiar do Nirvana, o estado de pureza.
— Extraído de: A Voz do Silêncio
