📚 Escritos Compilados de Helena Petrovna Blavatsky
FENÔMENOS OCULTOS E ESPIRITUAIS À LUZ DA CIÊNCIA MODERNA
Volume: 4/15 | Páginas originais: 249-261
Fonte: Blavatsky, H.P. Collected Writings, Volume 4, Theosophical Publishing House
H. P. BLAVATSKY.
[The Theosophist, Vol. IV, No. 2, novembro de 1882, pp. 50-51]
Acabo de receber a Light — o mais capaz dos periódicos espiritualistas da Inglaterra — de 23 de setembro, e leio as suas “Notas de Passagem”, contribuídas por “M. A. (Oxon)”, com um interesse incomum. Tão grande foi este último, de fato, que me faz afastar por uma vez da minha impessoalidade editorial e responder às “Notas” com a minha própria assinatura.
Não mais recuando do que há um ano, especialmente se eu tivesse lido essas notas nas planícies ressequidas e escaldantes da Índia, eu poderia ter ressentido profundamente o seu tom inamistoso. Mas agora, de uma altitude de mais de 8000 pés acima do nível do mar, tendo acabado de gozar o privilégio de passar quarenta e oito horas na companhia desses tão duvidos IRMÃOS nossos, e de certos dos nossos Teosofistas, além disso, que cruzaram para o Siquim e fizeram as suas relações pessoais, representando prova legal adicional em favor das minhas reivindicações — estou antes inclinado a sentir-me divertido do que de outra forma.
De fato, descubro que nem aquele tom muito inamistoso assumido por algum tempo passado contra mim nas “Notas”, nem mesmo os incessantes golpes na direção dos IRMÃOS, são capazes de agitar a minha presente placidez. Contudo, confesso que, vindo como vêm de alguém que nem ele mesmo, nem o seu “Imperator” (por quem, creio, ele deve sentir tanta reverência quanto eu sinto pelos nossos Protetores e MESTRES), jamais foi mencionado em tom de zombaria ou desprezo, nem mesmo de forma inamistosa no nosso jornal — parece deveras surpreendente. De qualquer modo, a presente atitude de “M.A. (Oxon)” é bastante mais perigosa para ele mesmo, e para a causa que representa e pela qual trabalha tão zelosamente, do que é para os IRMÃOS ou mesmo para o meu próprio humilde eu, uma vez que, de fato, a sua cordial aprovação da crítica inimiga que encerra a resenha de O Mundo Oculto do Sr. Sinnett, num artigo científico que ele cita, parece dirigida muito mais contra os fenômenos Espirituais em geral, e contra os médiuns e os “Espíritos” em particular, do que contra a Ciência Oculta e os seus grandes Professores vivos. Direi mais: em alguém que reivindica publicamente — e não faz segredo de estar em comunicação direta e constante com, e de ser o porta-voz de, “Imperator” — um alto Espírito — tal política prova-se simplesmente suicida. Pois, quem ousará negar — nenhum homem de ciência, de qualquer modo, nem o próprio Journal of Science — que as reivindicações de “M.A. (Oxon)” certamente não são mais — e os lógicos estritos, bem como um júri imparcial, podem dizer muito menos — demonstráveis de acordo com as leis da ciência indutiva, ou mesmo da evidência judicial, do que as nossas reivindicações de um conhecimento e intercâmbio com IRMÃOS vivos? Realmente, o nosso amigo deveria abster-se de atirar pedras no quintal do seu vizinho mais próximo. Tanto no caso de “M.A. (Oxon)” quanto no meu, o objeto da prova — tão difícil de demonstrar — é a existência real, palpável e inegável dos “Espíritos” e dos “Irmãos”; as suas reivindicações respectivas (ou antes, as que nós mesmos, os seus humildes porta-vozes, fazemos em seu nome) de conhecimento e poderes superiores, parecendo ser de importância secundária nesta negação em massa pelos “Filisteus” céticos do próprio ser deles. As resenhas são interessantes, não meramente porque mostram o que os nossos amigos e inimigos pensam de nós, mas também porque nos proporcionam uma estimativa segura de que opinião os nossos críticos têm de si mesmos. Tal é o duplo benefício que obtive com a leitura da nota de “M.A. (Oxon)” sobre a resenha de O Mundo Oculto pelo Journal of Science. Não somente percebo a correção (até certo ponto) da crítica da ciência exata ortodoxa — embora sentindo-me tão seguro de que nem a descoberta de um novo planeta ou mineral satisfaria os seus céticos — mas, mais do que nunca, aprendo que é vão esperar qualquer coisa parecida com imparcialidade mesmo dos críticos mais inteligentes e amistosos, uma vez que as suas mentes estejam enviesadas e preconceituosas por uma série de equívocos. Com a gentil permissão de “M.A. (Oxon)”, eu, por minha vez, resenharei a sua estranha resenha. Já aparece na presente edição outra carta, assinada por cinco dos Chelas dos nossos venerados MESTRES, contra uma série de críticas da mesma pena, dirigidas contra eles, na Light. Eles percebem nessa atitude de hostilidade simplesmente o “efeito da mediunidade” e suspeitam que “Imperator” não seja melhor do que um Espírito Elemental, mas eu protesto contra esse equívoco e nunca me permitiria pessoalmente lançar suspeita ou mancha seja sobre a boa-fé pessoal de “M.A. (Oxon)” ou sobre a do seu “controle”, como ele constantemente faz com relação aos nossos “IRMÃOS” e ao autor do presente. Contentar-me-ei, então, com simplesmente citar da sua resenha e apontar a sua estranha atitude. Ele diz:
O Journal of Science completou agora uma notícia franca e temperada de O Mundo Oculto do Sr. Sinnett. O escritor trata das evidências de poder extraordinário, tais como a criação da xícara e do pires em Simla pela Madame Blavatsky, com justiça, e num espírito judicial. Ele considera que a narrativa deve ser aceita como um registro substancialmente exato de uma ocorrência real. Ele põe de lado a suposição de uma fraude elaborada como ‘literalmente cheia de dificuldades’, e chega à conclusão de que ‘a xícara e o pires foram produzidos na terra onde foram encontrados, por uma agência para nós inconcebível’. Esta é uma concessão surpreendente quando se considera de que parte ela vem. Estamos tão acostumados a encontrar o inexplicável ou o não explicado tratado pela ciência aberta como o impossível, especialmente no caso dos fenômenos psíquicos, que esta consideração franca de uma declaração antecedentemente incrível é tão surpreendente quanto bem-vinda.
Até aqui isto soa bastante amistoso, mesmo que a admissão de “M.A. (Oxon)” permita um argumento tão bom contra os fenômenos espiritualistas quanto contra os dos Ocultistas. Mas logo o tom muda e, sendo concedida a provável autenticidade dos fenômenos, a sua natureza é posta em questão.
Aprecio inteiramente [diz “M. A. (Oxon)”] as palavras do Resenhador quando ele aponta que tais façanhas, tão parecidas com mera prestidigitação, não são de modo algum a melhor evidência de conhecimento superior. Suponhamos que a Irmandade dissesse: ‘Aponte o seu telescópio para tal e tal ponto dos céus, você encontrará um planeta ainda desconhecido para você, tendo tais e tais elementos’, ou ‘Cave a terra em tal lugar e você encontrará um mineral contendo um metal novo para a sua ciência: o seu peso atômico, a sua gravidade específica, etc., são tais e tais’. Provas tais ou similares, não de poder superior, mas de conhecimento mais alto, não aumentariam as facilidades de nenhum homem para o mal. Antes, eu poderia acrescentar, aumentariam o tesouro do conhecimento humano, e provariam incontestavelmente a presença entre nós de alguns seres mais sábios e mais benéficos do que nós. Mas, como aponta o Resenhador, procuramos em vão por qualquer evidência desse tipo. ‘Até que algum ponto de apoio deste tipo nos seja dado, é inútil pedir-nos para nos juntarmos à Sociedade Teosófica ou mudarmos o nosso modo de vida.’ Ensinamentos tão indefinidos somos compelidos a rejeitar, não, de fato, ‘com arrogância’, mas com tristeza. É impossível encontrar qualquer falta razoável com tal atitude. É verdade que os Adeptos Irmãos se apresentam como homens relutantes em abrir a porta do conhecimento a qualquer um senão ao apelo mais paciente e persistente feito por alguém que provou ser um postulante digno. Essa é uma atitude incompatível com alguns passos dados ultimamente. Demais ou de menos tem sido dito em seu nome, e o resultado é perplexidade e confusão.
Tal é a sentença passada sobre os IRMÃOS, ou antes, sobre mim, o seu humilde discípulo. Ora, o que diria o cético mediano — que não acredita nem em “Imperator”, nem nos “IRMÃOS”, e que considera tanto “M.A. (Oxon)” quanto H. P. Blavatsky à luz de um lunático alucinado quando não de um impostor deliberado — o que diria um cético a isto? Fora dos crentes no Espiritualismo e no Ocultismo — um punhado comparado com a massa da humanidade — qualquer cético mediano simplesmente riria de tal crítica quando ela emana de um conhecido Espiritualista, um médium que ele mesmo reivindica uma comunicação pessoal com um “alto espírito” e muitos menores. Podem os Espiritualistas apontar para qualquer dos seus fenômenos de caráter “mais alto” do que as poucas trivialidades gentilmente mostradas ao autor de O Mundo Oculto? Fizeram os seus médiuns, os mais altos, os melhores deles, durante os últimos quarenta e tantos anos da sua atividade, qualquer descoberta única que beneficiasse a humanidade ou mesmo a ciência? São as contraditórias e conflitantes porções de filosofia, exibidas caleidoscopicamente pelos “Espíritos” através dos médiuns, uma única fagulha mais altas do que aquela contida mesmo nas poucas cartas dispersas publicadas em O Mundo Oculto? Provou mesmo “Imperator” ser, nos seus ensinamentos, qualquer coisa mais alta, mais filosófica ou mais erudita do que Koot-Hoomi, e consentiu ele alguma vez em aparecer perante o “Filisteu mediano” ou em dar uma demonstração inquestionável da sua realidade pessoal exceto, talvez, na presença de muito, muito poucos — de qualquer modo, por muito menos numerosos do que aqueles que conhecem pessoalmente os nossos IRMÃOS; — ou, finalmente, provou mesmo ele, “Imperator”, esse “grande e sábio espírito” que, como tal, deveria ser muito mais poderoso e erudito nos mistérios dos planetas e minerais não descobertos do que o mais alto Adepto-Ocultista vivo — se a teoria espiritualista for verdadeira — provou mesmo ele, pergunto, algum dia beneficiar o mundo da ciência ou o público profano, ou mesmo o seu próprio médium, por qualquer grande descoberta, que, “aumentando o tesouro do conhecimento humano”, o tenha provado, por isso mesmo, um ser “mais sábio e mais benéfico” do que nós “e os IRMÃOS”? A resenha de “M.A. (Oxon)” é, portanto, uma espada de dois gumes. Enquanto tenta com um dos seus lados atingir os IRMÃOS e os Ocultistas, ele simplesmente corta, e muito mal, a si mesmo e ao Espiritualismo com o outro. Parafraseando as palavras do Resenhador e de “M.A. (Oxon)”, encerrarei as minhas observações com o seguinte:
“Até que algum ponto de apoio deste tipo nos seja dado”, é inútil exaltar os “Espíritos” e os “Médiuns” acima dos “IRMÃOS” e dos seus Ocultistas. A atitude dos primeiros é verdadeiramente “incompatível” com os seus quarenta anos de atividade ardente, e nenhum resultado de qualquer tipo; e, enquanto todos sabemos do que os “Espíritos” têm sido até agora capazes, nenhum Espiritualista está ainda em posição de dizer que benefício pode ou não advir ao mundo através dos “IRMÃOS”, uma vez que eles apenas dificilmente apareceram no horizonte. Paciência, paciência, bons amigos e críticos. “Perplexidade e confusão” estão muito mais do vosso lado do que do nosso e — qui vivra verra!
Tindharia, perto de Darjeeling, nos Himalaias,
23 de outubro.
