Gostaria de compreender a natureza da dependência. Sou consciente de que dependo de muitas coisas: das mulheres, de diferentes tipos de diversões, do bom vinho, de minha esposa e filhos, de meus amigos, do que as pessoas possam dizer. Por fortuna não dependo do entretenimento religioso, mas dependo dos livros que leio para me estimular na boa conversação. Igualmente vejo que os jovens também dependem, talvez não tanto quanto eu, mas eles têm suas formas peculiares de dependência. Estive no Oriente e vi como eles dependem do guru e da família. Ali a tradição tem maior importância, está mais profundamente arraigada do que na Europa e, sem dúvida, muito mais do que na América. Ou seja, aparentemente, todos dependemos de algo que nos sustenta, não apenas fisicamente mas muito mais: do interior. Por isso me pergunto se é possível estar realmente livre da dependência e se se deve estar livre dela.
Krishnamurti: Suponho que você está interessado nos apegos psicológicos internos. Quanto mais apegado se está, maior é a dependência. O apego não é apenas a pessoas, mas também a coisas e a ideias: apegamo-nos a um ambiente particular, a um país concreto, etc., e daí surge a dependência e, consequentemente, a resistência. O objeto de meu apego é meu domínio territorial ou sexual. Protejo isso resistindo a qualquer forma de intrusão que venha de outros. Também limito a liberdade da pessoa a quem me apego e limito minha própria liberdade, por isso o apego é resistência. Se estou apegado a algo ou a alguém, esse apego é posse, e a posse é resistência; portanto, o apego é resistência.
A liberdade não é um estado de não dependência, é um estado positivo no qual não há nenhuma dependência. A liberdade não é um resultado, não tem causa. Devemos compreender isso de forma muito clara antes de podermos investigar a questão de por que o homem depende ou cai na armadilha do apego com todas as suas desdichas. Porque ao estar apegados tentamos cultivar um estado de não dependência, que é outra forma de resistência. A liberdade não está no oposto; os opostos são idênticos e se fortalecem mutuamente. O que realmente interessa é como desfrutar dos prazeres do apego sem suas desdichas; mas isso é impossível, daí a importância de compreender que a liberdade não depende do desapego. A liberdade surge da compreensão do apego, não do ato de escapar do apego.
Como não se é nada, assim como um deserto estéril, espera-se encontrar água por meio de outro. Ao se sentir vazio, miserável, desdichado, incapaz, sem interesse ou importância, espera-se enriquecer-se à custa de outro. Ao amar alguém espera-se esquecer-se de si mesmo, espera-se adquirir beleza mediante a beleza de outro, espera-se cobrir de flores esse deserto através da família, da nação, do amante, de alguma crença fantástica, e em última instância, deseja-se a Deus; por isso agarra-se fortemente a todas essas coisas. Mas em tudo isso há dor, incerteza e, consequentemente, o deserto parece voltar-se cada vez mais árido. Claro que o deserto não é nem mais nem menos árido, é o que sempre foi, apenas evitou-se olhá-lo enquanto se escapava por meio de alguma forma de apego, com sua dor incluída, e depois voltar a escapar dessa dor com o desapego; mas mesmo assim segue-se tão árido e vazio como antes.
Em vez de tentar escapar através do apego ou do desapego, é possível ser conscientes desse fato, da profunda pobreza e insuficiência interna, dessa torpeza e desse vazio solitário? Esta é a única coisa que importa, não o apego ou o desapego; portanto, pode olhá-lo sem nenhuma classe de condena ou opinião? Se o faz, está olhando-o como um observador que olha o observado ou o olha sem o observador? Quando se olha com liberdade não há observador. Se não há observador, existe essa coisa observada como a solidão, o vazio ou a desdicha?
Porque a árvore não é algo criado pelo centro, pela mente do “eu”, mas a mente do “eu”, com toda sua atividade centrada em si mesma, criou esse vazio, esse isolamento, e se a mente olha sem esse centro, a atividade egocêntrica cessa; nesse momento não existe a solidão e a mente funciona em liberdade. Ou seja, se olharmos toda a estrutura do apego e do desapego, todo o movimento da dor e do prazer, veremos como a mente do “eu” estabelece seu próprio deserto, suas próprias evasões. E se a mente do “eu” está em calma, não há deserto nem evasões.
A liberdade não é um estado de não dependência, é um estado positivo no qual não há nenhuma dependência. A liberdade não é um resultado, não tem causa. A liberdade surge da compreensão do apego, não do ato de escapar do apego.
— Despertar à Vida — J. Krishnamurti
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