A ideia associada à palavra “alma” de que o homem possa ser uma entidade separada de todas as demais, e de todo o Universo, é irracional, impossível de provar pela lógica e insustentável pela ciência. Não há um “eu” separado, nem podemos chamar “meu” isto ou aquilo.
Se devemos rejeitar a ideia de uma “alma” humana separada, o que é então no homem que lhe dá a impressão de ter uma personalidade permanente? É Tanhā, o desejo insatisfeito de existência. Tendo o Ser feito aquilo pelo qual deve ser recompensado ou castigado no futuro, e tendo Tanhā, haverá um renascimento pela influência do Karma. O que nasce é um novo agregado de skandhas — personalidade — produzido pelo último pensamento fecundo da pessoa que morre.
Os cinco skandhas são: Rūpa, as qualidades materiais; Vedanā, a sensação; Saññā, as ideias abstratas; Samkhārā, as tendências da mente; Viññāna, os poderes mentais ou consciência. De isto somos formados. Por eles temos consciência da existência; e por eles podemos comunicar-nos com o mundo que nos rodeia. As diferenças na combinação dos cinco skandhas, que fazem cada indivíduo diferir de todos os outros, devem-se ao Karma amadurecido pelo indivíduo em seus nascimentos anteriores.
A nova personalidade é o mesmo Ser do nascimento anterior? Em um sentido é um novo Ser; em outro, não. Em páli é “nacha so nacha añño” — não é o mesmo, nem outro. Durante esta vida os skandhas estão mudando constantemente; e assim como o homem de quarenta anos é idêntico em personalidade ao jovem de mesmo nome aos dezoito, mas é um ser diferente pelo contínuo desgaste e recuperação do corpo e pela mudança de mentalidade e caráter, o novo Ser de um renascimento colhe as consequências de seus atos e pensamentos da existência anterior.
A doutrina dos renascimentos baseia-se na percepção de que a justiça perfeita, o equilíbrio e o ajuste são inerentes ao sistema universal da Natureza. Não cremos que uma vida seja longa o suficiente para a recompensa ou correção das ações do homem. O grande círculo de renascimentos será percorrido mais ou menos rapidamente segundo a pureza ou impureza que predominem nas várias vidas do indivíduo.
Nirvāna é sinônimo de esquecimento de si mesmo, de entregar-se completamente à verdade. O ignorante aspira à felicidade nirvânica sem a mínima ideia de sua natureza. Nirvāna é a ausência de egoísmo. Fazer o bem com mira em atingir resultados, ou levar uma vida santa com o objeto de obter a felicidade celeste, não é a Vida Nobre que o Buda postulou. A Vida Nobre deve ser vivida sem esperança de recompensa, e essa é a vida superior. O estado nirvânico pode ser alcançado enquanto se vive na terra.
— Extraído de: Catecismo Budista — Olcott
