E agora a situação se apresenta assim: como os antigos alquimistas não deixaram uma chave para seus escritos, estes se tornaram um mistério dentro de um mistério mais antigo. A Kabalah é interpretada e verificada apenas pela luz que os místicos medievais lançaram sobre ela, e eles, em sua cristologia forçada, tiveram que colocar uma máscara dogmática teológica em cada ensinamento antigo, resultando que cada místico entre nossos modernos kabalistas europeus e americanos interpreta os velhos símbolos à sua própria maneira, e cada um remete seus oponentes ao Rosacruz e ao Alquimista de trezentos e quatrocentos anos atrás.
O dogma cristão místico é o turbilhão central que engole todo antigo símbolo pagão, e o Cristianismo — Cristianismo Anti-Gnóstico, a retorta moderna que substituiu o alambique dos Alquimistas — destilou a Kabalah de forma irreconhecível, isto é, o Zohar hebraico e outras obras místicas rabínicas. E agora chegou-se a isto: o estudante interessado nas Ciências Secretas tem que acreditar que todo o ciclo do simbólico “Ancião dos Dias”, cada fio da poderosa barba do Macroprosopus, refere-se apenas à história da carreira terrena de Jesus de Nazaré! E nos dizem que a Kabalah “foi primeiramente ensinada a um seleto grupo de anjos” pelo próprio Jeová — que, por modéstia, deve-se pensar, fez-se apenas a terceira Sephīrōth nela, e feminina ainda por cima.
Tantos kabalistas, tantas explicações. Alguns acreditam — talvez com mais razão que os demais — que a substância da Kabalah é a base sobre a qual a Maçonaria é construída, já que a Maçonaria moderna é inegavelmente o reflexo obscuro e nebuloso da Maçonaria Oculta primeva, do ensinamento daqueles divinos Maçons que estabeleceram os Mistérios dos Templos de Iniciação pré-históricos e pré-diluvianos, erigidos por Construtores verdadeiramente sobre-humanos. Outros declaram que os princípios expostos no Zohar referem-se meramente a mistérios terrestres e profanos, não tendo mais relação com especulações metafísicas — como a alma, ou a vida pós-morte do homem — do que os livros mosaicos.
Outros, ainda — e estes são os verdadeiros e genuínos kabalistas, que receberam suas instruções de rabinos judeus iniciados — afirmam que se os dois mais eruditos kabalistas do período medieval, John Reuchlin e Paracelso, diferiam em suas profissões religiosas — o primeiro sendo o Pai da Reforma e o último um católico romano, ao menos na aparência — o Zohar não pode conter muito de dogma ou princípio cristão, de uma forma ou de outra. Em outras palavras, eles sustentam que a linguagem numérica das obras kabalísticas ensina verdades universais — e não qualquer Religião em particular.
Aqueles que fazem esta afirmação estão perfeitamente corretos ao dizer que a Linguagem de Mistério usada no Zohar e em outra literatura kabalística foi outrora, em um tempo de antiguidade insondável, a linguagem universal da Humanidade. Mas tornam-se inteiramente equivocados se a este fato acrescentam a teoria insustentável de que esta linguagem foi inventada pelos, ou era propriedade original dos, hebreus, dos quais todas as outras nações a tomaram emprestada.
Estão errados, porque, embora o Zohar, O Livro do Esplendor do Rabi Shimon ben-Yoƒai, tenha de fato se originado com ele — seu filho, Rabi Elēazār, auxiliado por seu secretário, Rabi Abbā, compilando os ensinamentos kabalísticos de seu falecido pai em uma obra chamada Zohar — aqueles ensinamentos não eram do Rabi Shimon, como o Gupta-Vidyā demonstra. São tão antigos quanto a própria nação judaica, e muito mais antigos. Em suma, os escritos que passam atualmente sob o título de Zohar do Rabi Shimon são tão originais quanto foram as Tábuas sincronísticas egípcias depois de manuseadas por Eusébio, ou quanto as Epístolas de São Paulo após sua revisão e correção pela “Santa Igreja”.
A Linguagem de Mistério usada no Zohar e em outra literatura kabalística foi outrora, em um tempo de antiguidade insondável, a linguagem universal da Humanidade. A Maçonaria moderna é inegavelmente o reflexo obscuro e nebuloso da Maçonaria Oculta primeva, do ensinamento daqueles divinos Maçons que estabeleceram os Mistérios dos Templos de Iniciação pré-históricos e pré-diluvianos.
— A Doutrina Secreta — H.P. Blavatsky
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