Vós sois o mundo, sois o construtor deste mundo de extrema desordem, deste mundo que em seu imenso sofrer clama em vão. Fostes vós quem o criou. Por conseguinte, o mundo exterior a vós não difere daquele em que pessoalmente viveis.
Na realidade, não existe, absolutamente, essa separação entre o indivíduo e a sociedade. Quem procura talhar sua própria vida particular não difere da comunidade em que vive. Porque o indivíduo, o ser humano, formou a comunidade, a sociedade. Devemos ver clarámente, desde o começo, que tal divisão é ilusória, irreal.
Ao efetuardes uma mudança radical no homem, em vós mesmos, estais naturalmente realizando uma mutação profunda na estrutura e natureza da sociedade. Importa ficar ciaramente entendido que a mente humana, com toda a sua complexidade, seu complicado funcionamento, faz parte deste mundo externo. Sois o mundo e, operando uma revolução fundamental (não revolução comunista ou socialista, mas uma revolução de espécie totalmente diferente), estareis produzindo uma revolução social. Essa revolução não deve começar exteriormente, porém interiormente, porquanto o exterior resulta de nossa própria vida interior.
Porque em nós está o mundo. Não podemos separar-nos dele. Nós somos o mundo. E para transformarmos o mundo — e há necessidade dessa transformação — temos primeiro de transformar-nos. Para promovermos uma mudança em que haja ordem, cumpre-nos compreender as causas da desordem em nós existente.
O que estamos dizendo é que o homem já fez uma viagem tão longa, e sua vida foi sempre um campo de batalha, não só dentro dele próprio, mas também externamente; todas as suas relações estão em conflito: na fábrica, no escritório, no lar, é uma luta, uma batalha incessante. E nós estamos dizendo que uma vida assim não é vida absolutamente. Podeis ter vossos deuses, vossas riquezas, possuir extraordinárias capacidades, mas não estais vivendo, não sois entes felizes. Não há felicidade, não há bem-aventurança na vida. E para alcançar essa felicidade, essa bem-aventurança, a pessoa tem de compreender a si própria, necessita de liberdade para olhar. Para olhar com justeza, não deve haver separação entre o observador e a coisa observada. E, quando isso acontece, desaparece por inteiro o espírito de luta por nos tornarmos alguma coisa, sermos alguma coisa. Vós sois o que sois. Ao observá-lo, ocorre de pronto uma mudança radical. Isso põe fim à idéia do tempo e da gradualidade.
Vós sois o mundo, sois o construtor deste mundo de extrema desordem. Essa revolução não deve começar exteriormente, porém interiormente, porquanto o exterior resulta de nossa própria vida interior. Para transformarmos o mundo, temos primeiro de transformar-nos.
— Conversas com Estudantes — J. Krishnamurti
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