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O Homem Fragmentado e a Revolução Radical

A principal dificuldade é esta, que o homem vive fragmentado, não só em seu interior, mas também exteriormente: ele é cientista, médico, soldado, sacerdote, teólogo, especialista desta ou daquela matéria. Interiormente, sua vida está fragmentada, fracionada; sua mente, seu intelecto, é sutil e sagaz; por vezes, ele é brutal, agressivo, enquanto outras vezes pode mostrar-se bondoso, manso, afetuoso; esforça-se por ser um ente moral, embora a moralidade social seja de todo em todo imoral, e seus inúmeros desejos antagônicos são a causa dessa fragmentação existente por dentro e por fora, dessa contradição interior e exterior. E o homem forceja incessantemente por lançar uma ponte sobre o abismo e realizar uma integração, o que naturalmente é absurdo; a integração é impossível. Se examinardes essa palavra e descobrirdes todo o seu conteúdo, sereis forçados a perguntar a vós mesmos quem é a entidade capaz de realizar a integração. Por certo, a própria entidade que irá integrar os múltiplos fragmentos faz parte deles e, portanto, não poderá efetuar sua integração. Vendo-se isso claramente, ou seja que as parcelas de desejo, nesta nossa vida tão dividida e fragmentada, jamais poderão ser unidas, integradas, porque a própria entidade, o próprio observador que está tentando ajuntá-las faz parte da fragmentação — se bem o percebemos, torna-se óbvio que deve haver um diverso modo de proceder; e ele consiste em ver a contradição, os fragmentos, as exigências e desejos contrários, observá-íos, para ver se há possibilidade de ultrapassá-los, de transcendê-los. É este transcender que constitui a revolução radical. Então, a mente já não se verá dividida, torturada; já não estaremos em conflito interior, nem com o nosso próximo, onde quer que ele viva, na casa vizinha, na Rússia ou no Vietnã. Oxalá possamos observar esse fato! — pois estamos tratando apenas de fatos, e não de suposições ou ideais. Os ideais não têm significado algum; são contra-sensos, invenções do espírito solerte ao ver-se impossibilitado de resolver um problema tal como, por exemplo, a violência; inventa ele, assim, o ideal da não-violência. Dada a sua incapacidade de resolver o problema da violência, criou o ideal da nãoviolência, ou seja nos tornarmos pacíficos, um dia, no futuro, e acontece então que a própria criação de um ideal produz mais conflito, mais luta, mais contradição.

Notai, por favor, que não estou tentando analisar-vos — que é uma coisa muito diferente e sem nenhuma relação com esta nossa investigação. Pois bem; entremos na questão, passo a passo! Quando o observador, por si próprio, descobre que ele é a coisa observada, que ele é a violência, e esta não existe separada dele, não é uma coisa que ele possa alterar ou controlar — cessa então a divisão entre o observador e a coisa observada e, conseqüentemente, o observador eliminou a causa do conflito e da contradição em si existentes. Entretanto, o fato — a violência — subsiste; sou ainda violento por natureza, todo o meu ser é violento, e é puro absurdo que uma parte de mim mesmo é pacífica e amorávei, e outra parte violenta. Violência significa divisão, contradição, conflito, separação e falta de amor; mas percebi agora o fato central, ou seja, que o observador e a coisa observada são um só todo. Ora, pode a minha mente observar a imagem do que ela considera “violência”, e bem assim os meus “direitos adquiridos” nessa violência? — pois a imagem que tenha a respeito de mim mesmo e da violência deve desaparecer inteiramente, para que minha mente fique livre para observar. E, depois de observar, permanece ainda o fato de que sou violento, mesmo se digo que eu e a violência formamos um conjunto. Que cumpre fazer? Quando observo que sou violento e vejo claramente que o observador é essa violência, compreendo então que não posso fazer absolutamente nada, porque toda ação, positiva ou negativa, faz ainda parte da violência.

Tendes, pois, de ser vosso próprio mestre e vosso próprio discípulo, porquanto, fora de vós, não existe nenhum instrutor, nenhum Salvador, nenhum Mestre; vós mesmos tendes de transformar-vos e, por conseguinte, cabe-vos aprender a observar e a conhecer-vos. Esse aprender acerca de si próprio é uma atividade fascinante, proporcionadora de grande alegria; é aprender sobre a violência, que faz parte da estrutura de vossa vida. E, para aprender, a mente deve ser livre; ela não pode aprender algo da violência se previamente acumulastes conhecimentos a seu respeito. Pensamos que acumular conhecimentos é aprender; adquirir conhecimentos e aprender são duas coisas diferentes. O médico, o cientista, o engenheiro, acumularam conhecimentos, que vão aumentando à medida que se fazem novas descobertas; sua ciência, por conseguinte, se torna um depósito, uma tradição. Isso não é aprender. Só é possível aprender num estado de constante movimento; só há aprender no presente ativo. Aprender é um movimento, quer estejais aprendendo em conjunto com outros, quer aprendendo sozinho. Tem-se de aprender constantemente, e não, tendo aprendido, aplicar o que se aprendeu, o que se acumulou. Isso não é aprender, é mera acumulação de conhecimentos.

Encerra o aprender um grande júbilo; não há desesperar-vos com o que vedes, porque não o comparais com o ideal, que deveria ser: só há o que é, e observar o que é é aprender infinitamente. Tudo está contido em vós; como este que vos faia, não tendes necessidade de ler nenhum livro, porque o homem é tão velho como aqueles montes — • mais velho ainda. Ele é um ente vivo, e um ente vivo não deve ser condicionado. Mas nós o condicionamos, e eis por que nossa vida se tornou uma tortura, uma luta sem nenhuma significação.

Quando o observador, por si próprio, descobre que ele é a coisa observada, cessa então a divisão entre o observador e a coisa observada. Encerra o aprender um grande júbilo; só há o que é, e observar o que é é aprender infinitamente.

— Conversas com Estudantes — J. Krishnamurti

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