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O Nascimento do Divino na Alma

A natureza evolui do imperfeito para o perfeito. Ela conduz os seres, através de uma longa série de estágios, da matéria inanimada, passando por todas as formas vivas, até o homem físico. O homem olha ao redor e se percebe como um ser em transformação com realidade física, mas também percebe dentro de si as forças das quais a realidade física surgiu. Essas forças não são o que muda, pois elas deram origem ao mundo mutável. Elas estão dentro do homem como um sinal de que há mais vida nele do que ele pode perceber fisicamente. O que elas podem fazer do homem ainda não está ali. Ele sente algo brilhar dentro de si que criou tudo, incluindo a si mesmo, e sente que isso o inspirará a uma atividade criativa superior. Esse algo está dentro dele, existia antes de sua manifestação na carne e existirá depois. Por meio dele ele veio a ser, mas pode apoderar-se dele e tomar parte em sua atividade criativa.

Tais são os sentimentos que animam o Místico após a iniciação. Ele sente o Eterno e o Divino. Sua atividade é tornar-se parte dessa atividade criativa divina. Ele pode dizer a si mesmo: “Descobri um eu superior dentro de mim, mas esse eu se estende para além dos limites da minha existência sensorial. Ele existia antes do meu nascimento e existirá após a minha morte. Esse eu criou desde toda a eternidade, e continuará criando por toda a eternidade. Minha personalidade física é uma criação desse eu. Mas ele me incorporou dentro de si, ele trabalha em mim, eu sou uma parte dele. O que eu criar daqui em diante será superior ao físico. Minha personalidade é apenas um meio para esse poder criativo, pois esse Divino está dentro de mim.” Assim o Místico experimentava seu nascimento no Divino.

O Místico chamava o poder que brilhava dentro dele de daimon. Ele mesmo era o produto desse daimon. Parecia-lhe como se outro ser tivesse entrado nele e tomado posse de seus órgãos, um ser situado entre sua personalidade física e o poder cósmico que tudo governa, a divindade.

O Místico buscava esse seu daimon. Ele dizia a si mesmo: “Tornei-me um ser humano na poderosa Natureza, mas a Natureza não completou sua tarefa. Essa conclusão devo tomar em minhas próprias mãos. Mas não posso realizá-la no reino bruto da natureza ao qual minha personalidade física pertence. O que é possível desenvolver nesse reino já foi desenvolvido. Portanto, devo deixar esse reino e retomar a construção no reino do espírito, no ponto onde a natureza parou. Devo criar uma atmosfera de vida que não se encontra na natureza exterior.”

Essa atmosfera de vida era preparada para o Místico nos templos dos Mistérios. Ali as forças adormecidas dentro dele eram despertadas, ali ele era transformado em uma natureza espiritual criativa superior. Essa transformação era um processo delicado. Não podia suportar a atmosfera não temperada da vida cotidiana. Mas, uma vez concluída, seu resultado era que o iniciado permanecia como uma rocha, erguendo-se do eterno e capaz de desafiar todas as tempestades. Mas era impossível para ele revelar suas experiências a alguém despreparado para recebê-las.

E agora começava para ele o grande drama cósmico ao qual sua vida estava vinculada. A ação do drama não significava nada menos que a libertação do deus enfeitiçado. Onde está Deus? Essa era a pergunta feita pela alma do Místico. Deus não existe, mas a natureza existe. E na natureza Ele deve ser encontrado. Ali Ele encontrou um túmulo encantado. Era em um sentido superior que o Místico compreendia as palavras “Deus é amor”. Pois Deus exaltou esse amor ao seu clímax, Ele se sacrificou em amor infinito, Ele se derramou, caiu em número na multiplicidade da natureza. As coisas na natureza vivem e Ele não vive. Ele adormece dentro delas. Somos capazes de despertá-Lo; se quisermos dar-Lhe existência, devemos libertá-Lo pelo poder criativo dentro de nós.

O candidato agora olha para dentro de si mesmo. Como poder criativo latente ainda sem existência, o Divino vive em sua alma. Na alma há um lugar sagrado onde o deus enfeitiçado pode despertar para a liberdade. A alma é a mãe que pode conceber o deus pela natureza. Se a alma se deixa fecundar pela natureza, ela dará à luz o divino. Deus nasce do casamento da alma com a natureza — não mais um deus “oculto”, mas um deus manifesto. Ele tem vida, uma vida perceptível, vagando entre os homens. Ele é o deus libertado do encantamento, a prole do Deus que estava oculto por um feitiço. Ele não é o grande Deus, que era e é e há de vir, mas ainda assim pode ser tomado, em certo sentido, como a revelação Dele. O Pai permanece em repouso no invisível; o Filho nasce para o homem a partir de sua própria alma.

O conhecimento místico é, portanto, um evento real no processo cósmico. É o nascimento do Divino. É um evento tão real quanto qualquer evento natural, apenas encenado em um plano superior.

— Extraído de: O Cristianismo Como Fato Místico

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