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O Alento Eterno e a Consciência Absoluta

Só “com uma inteligência clara, não obscurecida pela personalidade, e com a assimilação do mérito de múltiplas existências consagradas ao Ser em sua coletividade (todo o Universo vivente e senciente)” é que poderemos libertar-nos da existência pessoal e realizar a união com aquele Absoluto, identificando-nos com ele e continuando em plena posse de Paramârtha.

A ideia de que as coisas podem cessar de existir, sem cessar de ser, é fundamental na psicologia do Oriente. Sob esta aparente contradição de termos, há um fato da Natureza; e é mais importante compreendê-lo que discutir as palavras. Um exemplo trivial de paradoxo semelhante pode ser encontrado em uma combinação química. Ainda está em aberto a questão sobre se o hidrogênio e o oxigênio deixam de existir quando se combinam para formar a água: dizem uns que, se eles reaparecem quando se decompõe a água, é porque aí permaneceram durante todo o tempo; outros sustentam que, tendo-se convertido em algo completamente diferente, aqueles elementos deixaram de existir como tais durante a combinação; uns e outros, porém, se mostram de todo incapazes de conceituar a condição verdadeira de uma coisa que se transformou em outra sem contudo deixar de ser a mesma. Em relação ao oxigênio e ao hidrogênio, pode-se dizer que a existência como água é um estado de Não-Ser, o qual é um ser mais real do que a existência como gases. Este é apenas um símbolo imperfeito da condição do Universo quando adormece ou cessa de ser, durante as Noites de Brahmâ, para despertar e ressurgir quando a Aurora do novo Manvantara o chamar, uma vez mais, para o que nomeamos existência.

O “Alento” da Existência Una é expressão adotada pelo esoterismo arcaico só no que respeita ao aspecto espiritual da Cosmogonia; em outros casos, é substituída pelo seu equivalente no plano material — o Movimento. O Elemento Eterno é Único, ou Veículo que contém os elementos, é o Espaço sem dimensões em qualquer sentido; coexistente com a Duração Sem Fim, com a Matéria Primordial (e portanto indestrutível) e com o Movimento, o “Movimento Perpétuo”, Absoluto, que é o “Alento” do Elemento Uno. Este Alento, como se vê, não pode cessar jamais, nem mesmo durante as Eternidades Pralaicas.

Mas o Alento da Existência Única não se aplica do mesmo modo à Causa Una sem Causa, ou Oni-Asseidade, em oposição ao Todo-Ser, que é Brahmâ ou o Universo. Brahmâ, o deus de quatro faces, que, depois de haver levantado a Terra do seio das águas, “levou a efeito a Criação”, é considerado somente como a Causa Instrumental, e não, conforme claramente se percebe, a sua Causa Ideal. Nenhum orientalista parece haver compreendido, até agora, o verdadeiro sentido dos versículos que, nos Purânas, se referem à “criação”.

O autoconhecimento exige que sejam reconhecidas a consciência e a percepção — e ambas estas faculdades são limitadas em relação a todo e qualquer sujeito, exceto quanto ao Parabrahman. Daí o aludir-se ao “Alento Eterno que não conhece a si mesmo”. O Infinito não pode compreender o finito. O Ilimitado não pode ter relação com o limitado e o condicionado. Na doutrina oculta, o motor Ignoto e Incognoscível, ou o Existente por Si Mesmo, é a Essência Absoluta e Divina. E assim, sendo Consciência Absoluta e Absoluto Movimento — para os sentidos limitados dos que tentam descrever o que é indescritível —, é inconsciência e imutabilidade. A consciência concreta não pode ser atribuída à consciência abstrata, mais do que se pode atribuir à água a qualidade de molhar — sendo a umidade seu próprio atributo e a causa da qualidade úmida em outras coisas. Consciência implica limitações e qualificações: algo de que ser consciente, e alguém para ser consciente. Mas a Consciência Absoluta contém o conhecedor, a coisa conhecida e o conhecimento; os três nela coexistem e formam um todo uno. Ninguém é consciente senão daquela parte do conhecimento que possa, em qualquer momento dado, evocar na mente; tal é, porém, a pobreza da linguagem humana que não dispomos de termos para distinguir o conhecimento em que não pensamos ativamente do conhecimento que não podemos reter na memória. Esquecer é sinônimo de não recordar. Quanto mais difícil será, então, encontrar palavras para descrever os fatos metafísicos e abstratos, e distinguir-lhes as diferenças! Deve-se ainda ter presente que nós definimos as coisas segundo as suas aparências. À Consciência Absoluta chamamos “Inconsciência”, porque assim nos parece que deva ser necessariamente, do mesmo modo que denominamos “Trevas” ao Absoluto, porque este parece de todo impenetrável à nossa compreensão finita. Mas não deixamos de plenamente reconhecer que a nossa percepção dessas coisas não se ajusta a elas. Involuntariamente distinguimos, por exemplo, entre a Consciência Absoluta inconsciente e a Inconsciência, atribuindo à primeira, em nosso foro íntimo, uma qualidade indefinida que corresponde, num plano superior ao que pode a nossa mente conceber, àquilo que conhecemos como consciência em nós mesmos. Mas não será nenhuma espécie de consciência que possamos distinguir do que a nós se apresenta como inconsciência.

— Extraído de: A Doutrina Secreta Vol. 1

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