📚 Escritos Compilados de Helena Petrovna Blavatsky
O CAVALEIRO SEM REPROVAÇÃO OU MEDO
Volume: 3/15 | Páginas originais: 351-353
Fonte: Blavatsky, H.P. Collected Writings, Volume 3, Theosophical Publishing House
A propósito do artigo do Statesman intitulado “Uma Blavatsky Australiana”, o senhor permitirá, espero, que a indivíduo bombainense daquele nome faça alguns comentários a respeito. Chamarei apenas sua atenção para o que posso denominar o aspecto mais notável daquele editorial cavalheiresco, a saber, o caráter de dois gumes da arma utilizada contra o objeto daquele ataque. Não se deve procurá-lo no aspecto exterior do ataque em si — um dos muitos artigos brutais, gratuitos e difamatórios dirigidos ultimamente contra o meu nome e reputação; nem mesmo no abuso e na impertinência de seu editor demasiado espirituoso. Muito menos está o ponto em questão, por ora, em se saber se sou merecidamente ou imerecidamente colocada em paralelo com a Sra. Jackson, a quem o Statesman se compraz em representar como uma aventureira, uma impostora e uma ladra, visto que é acusada de ter obtido um grande legado por fraude e falsos pretextos. Este último ponto posso deixar com segurança que os tribunais de Calcutá decidam e se pronunciem. Não: esse aspecto admirável reside antes na fria e serena audácia do editor, cuja atitude mental pode ser caracterizada pelo que o francês representa de modo pouco poético, mas graficamente, como cracher en l’air pour le faire retomber sur le nez — cuspir no ar, apenas para sentir o cuspe cair de volta sobre o próprio nariz — uma atitude verdadeiramente digna de um “Bayard”, o “Cavaleiro sem reprovação ou medo”!
Ora, o Editor do Statesman reivindica, creio eu, ser considerado um defensor ferrenho dos direitos do povo indiano: um reparador de seus agravos: alguém que quebra sua lança cavalheiresca em honra da bela Aryavarta? Assim também o faz o Editor do The Theosophist — um periódico fundado para o benefício dos nativos e unicamente para eles. Enquanto ele defende seus direitos políticos, nós, teosofistas, fazemos o melhor para defender seus direitos religiosos e para provar suas reivindicações à mais antiga civilização, literatura e sabedoria, mostrando assim sua superioridade, em muitos aspectos, sobre a nossa civilização ocidental — uma criança de ontem. Com este propósito, o Statesman político foi lançado em Calcutá, e o Theosophist “religioso-filosófico” em Bombaim. Até que ponto e se obtivemos sucesso em nossos respectivos objetivos é uma questão que devemos deixar que o tempo somente decida.
Tudo o que posso dizer é que nós, ao menos, tentamos dar o melhor de nós e conforme nossas humildes luzes e meios para realizar nossa tarefa. Mas aqui toda comparação entre o Statesman e o The Theosophist cessa abruptamente. Pois aquilo que para este último foi e é um trabalho de amor e devoção a uma ideia — por mais utópica que possa parecer a muitos — um trabalho recompensado pela maioria dos nativos (em cujo favor foi iniciado) com o abuso mais torpe, a suspeita e os ataques incessantes contra os teosofistas, o Statesman esperava e exigia que seu trabalho fosse remunerado. Todos nos lembramos de seus ruidosos e prementes apelos por dinheiro, no caso do Co-Regente de Hyderabad, aos povos da Índia. Rajas e Ryots, brâmanes e Sudras, príncipes e Mangs, todos deviam depositar sua pequena contribuição no altar da defesa nacional: milhares e lakhs de rupias eram exigidos para que o Statesman pudesse defender os interesses combinados do povo da Índia, e consta que somente uma Sabha enviou a Londres entre vinte e trinta mil rupias. Quanto bem obtiveram os contribuintes nativos pelo valor de seu dinheiro, não sei, pois não tenho interesse nem envolvimento com disputas políticas. Mas tenho o direito de observar que essa defesa e a pretensa devoção do Statesman aos nativos da Índia não é, como se poderia supor, algo totalmente desinteressado.
Por outro lado, o The Theosophist jamais fez o menor apelo, ou jamais apresentou qualquer reivindicação ao bolso nacional. O The Theosophist jamais pediu um pie sequer, nem espera ser pecuniariamente remunerado por seu trabalho e perdas. Aconselho o Statesman a negar isto, se puder.
Donde e para quê, então, esta tão súbita e inesperada série de ataques contra nós, aos quais o Statesman tão largamente se entregou ultimamente? Não poderia ser que ele tema uma possível concorrência quanto às remunerações recebidas dos nativos defendidos? Que seu Editor, ou Editores, em tal caso, repousem tranquilos sobre seus louros. Nem o The Theosophist nem seu Editor têm probabilidade de jamais vender ou prostituir seus favores. O pouco que têm a dar, dão-no livremente, nada esperando senão ingratidão em troca, pois servem a uma ideia, não a indivíduos. A verdadeira devoção a uma causa não se compra nem se vende; e, quanto ao seu dinheiro, a Índia pode escolher. Assim, o insolente paralelo do Statesman entre “Blavatsky” e “Jackson” é totalmente irrelevante, sendo uma difamação brutal. É como se, procurando estabelecer no The Theosophist uma comparação semelhante, chamássemos o Editor do Statesman de “um Robert Macaire britânico”.
Para lhe provar que não sou nenhuma aventureira, e para mostrar finalmente quem sou, envio-lhe dois documentos para sua leitura reservada. Um é de meu tio, General R. de Fadeyeff, Vice-Ministro do Interior em São Petersburgo; o outro, uma carta particular do Príncipe Dondukoff-Korsakoff, Governador-Geral da Rússia Meridional, de quem sou conhecida há trinta e cinco anos. O documento oficial que atesta minha identidade será publicado brevemente.*
H. P. BLAVATSKY
Bombaim, Breach Candy, 9 de dezembro de 1881.
* A carta particular mencionada não foi publicada no Bombay Gazette, por ser demasiado longa. A declaração do General Rostislav de Fadeyeff será encontrada em outro artigo nas páginas 446-48 do presente Volume.—Compilador.
